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Mulher Guerreira

Biografia

 

A vencedora da medalha este ano, foi a jovem Fabiana Ana da Silva Mendes, residente do distrito de Conceição das Crioulas. Criada trabalhando na agricultura.

Biografia:

Fabiana Ana da Silva Mendes popularmente conhecida como Fabiana Vencezlau nasceu em Sítio Mulungu, Conceição das Crioulas, zona rural da cidade de Salgueiro/PE. Bem no pé da serra ficava a escola onde estudou de 1ª a 4ª série, mais o aprender no campo nunca foi as quatro paredes de uma sala de aula, naquela época, dividida para três turmas. No mesmo pé dessa serra e às vezes em cima dela, ficava as roças, onde acontecia o preparo da terra, o plantio e a colheita.

Enquanto criança, não participava da primeira etapa, mas quando a roça era na serra, logo via o local escolhido, por conta da fumaça das brocas. No plantio, cabia a ela, colocar e entupir as sementes nas covas que os mais velhos iam deixando. Na colheita, ia a família toda. Fazia a comida na roça, usando na maioria das vezes os recursos oferecidos pela própria natureza, como a catioba que servia de prato. O milho, o feijão, a melancia, a abóbora e outras variedades, faziam parte do cardápio.

Para ela, todas essas vivências contribuíram na sua vida. O contato com a natureza também esteve presente nas brincadeiras quando corria livre pelos terreiros, ou quando se sentava junto com outras crianças na esteira no meio do tempo em noite de lua cheia para ouvir as histórias que os tios contavam ou as adivinhações feitas pela vó. Os galhos dos imbuzeiros serviam de balanço, as trepadeiras serviam de casinha, os sabugos de milho de bonecas e até as paredes dos açudes de escorregador.

Vem de uma família de 12 irmãos, sendo cinco homens e sete mulheres. Se entendeu de gente sem mãe, pois morrera vítima de chagas. As irmãs mais velhas moravam na cidade, em casa de famílias ricas para trabalhar e ajudar no sustento delas próprias e dos mais novos e para também, tentar continuar os estudos.

Por volta dos oito ou nove anos, o pai na sua viuvez, constrói uma nova união, sai de casa e ela passa a viver perambulando junto com os irmãos mais novos na rebeira toda. Aonde chegassem, estavam em casa, então, deste modo, tudo ficava bem.

Porém, em determinado momento, devido às circunstâncias, mudaram para a cidade. Foi um choque de realidade. A única coisa que deu para levar foi a brincadeira de bola onde a rua era transformada em quadra e se disputava o espaço entre carros, motos e pedestres. Aquela fileira de casas apregadas, sem quintais e terreiros, onde podia-se viver livremente. Foi preciso reaprender.

Tudo era muito difícil, então aos 11 anos, Fabiana começa a trabalhar. Dessa forma pulou uma etapa da sua vida que foi a adolescência passando da infância para a fase adulta. Trabalhava como babá e estudava. Ela destaca que lembra como se fosse hoje o valor que inicialmente ganhava: 30,00 reais por mês. Mesmo trabalhando era dedicada aos estudos. Sua patroa notando aquilo disse que quando aparecesse uma vaga na empresa de gás de seu marido, iria me colocar para assim eu ganhar mais e poder investir em meus estudos pois já naquela época pensava em ser professora. E assim foi... Com o passar dos anos a vaga surgiu e passa de babá para atendente.

Em 2005 casou-se, engravidou e tornou-se mãe. O marido sendo de  Conceição das Crioulas, voltou a morar lá.

Até então, ainda não tinha terminado o ensino médio. A comunidade tinha avançado nesse contexto também. Mesmo sendo extensão, pode cursar o 3º ano do Ensino Médio na Escola Professor José Mendes.

Definiu-se quilombola. Para ela não foi uma escolha mas  uma escolha da natureza que a rege e que a fez definir. A sua definição vem do que ela sente ao ouvir o toque do tambor ou o som do berimbau. Vem da ginga da capoeira que seu corpo faz sem sequer sair do lugar ou do coco que dança sem tirar os pés do chão. Vem da revolta que sente ao declamar cada verso, cada estrofe de Navio Negreiro e sentir no âmago do seu ser, os horrores que seu povo, o povo negro sentiu.

Sua definição vem pelo que lhe arrepia o corpo e estremece a alma. Todavia, entende que indígenas e quilombolas sofrem das mesmas mazelas, enfrentam os mesmos inimigos e se assemelham nas suas lutas e especificidades, sendo isso, motivo para união e parceria, assim como foi no Quilombo de Palmares.

            Mas, para ela, não basta apenas definir. Cada negro e cada negra tem uma dívida com os ancestrais que cruelmente foram arrancados do seu país, dos seus tronos, das suas casas em África. Para ela é preciso continuar a luta travada por eles. Não se pode abster dessa guerra onde nenhuma pessoa escolheu travar mais que tem a obrigação de continuar lutando.

 Ela escolheu lutar através da educação.

A educação em seu sentido mais amplo, aquela que se aprende em todos os espaços. Essa educação que causa liberdade. A educação que transcende os muros das escolas. Ela encontrou mais uma escola – a AQCC (Associação Quilombola de Conceição das Crioulas). Por que não adiantava apenas assumir a identidade quilombola, tinha que estar na luta. Através das formações políticas, ganhou bagagem para representar o movimento quilombola enquanto jovem, o que a levou a representar a comunidade no I Encontro da Rede Mocambos em São Paulo, tendo a oportunidade de conhecer as lideranças quilombolas nacionais. Enquanto jovem liderança feminina também, o que a levou ao Fórum Social Mundial em Belém do Pará. As atividades não paravam mas as dificuldades no casamento por conta da luta também não. Frases tipo: “você não vai... ou “arrume quem cuide de seu filho pois eu não vou cuidar”... ou ainda: “você vai ter que escolher ou eu ou o movimento”... eram freqüentes. Violências físicas, violências psicológicas, agressões verbais passou a fazer parte de sua rotina.

Apesar de todas as dificuldades ela não desistiu. Fez do próprio movimento seu espaço de libertação. Como mulher, jogava bola e junto com todas as outras que também ousavam jogar, na maioria das vezes tinham que ir para o embate com os homens para poder ter este direito. O campo e a quadra pareciam ter nascidos para ser freqüentados apenas por homens. Mas em Conceição não dava para ser assim, não podia ser assim pois muitas mulheres queriam e jogavam futsal e futebol. A luta sempre valeu a pena, prova disso é que as mulheres sempre se destacaram no futsal a nível local, municipal, estadual e até nacionalmente quando uma equipe feminina foi vice campeã nos Jogos Nacionais da Juventude. A equipe tinha homens como técnicos e para as mulheres de Conceição isso não é problema, o problema é quando falta respeito, falta espaço por conta de machismo aí é necessário ir para o embate. Essa luta no meio esportivo rendeu para Fabiana o título de primeira técnica de uma equipe feminina em um campeonato que acontecia na cidade. Resolveram: se não nos respeitam, não servem para serem os técnicos!!! Neste ano orgulhosamente e como total oposição ao machismo duas equipes participaram da competição e a frente das equipes estavam duas mulheres. Se foram campeãs??? Não, não foram, mas o maior prêmio já haviam conquistado: a medalha de ouro contra o preconceito dos homens!!!

Atualmente, Fabiana é uma mulher que defende a comunidade na luta pelo território, no enfrentamento a todos os tipos de violência contra a mulher, na busca dos jovens por um futuro melhor, e principalmente na luta pela educação. Ela acredita que muitas das mudanças que se quer na comunidade passa pela educação. Educar para informar, educar para respeitar, educar para entender, educar para sensibilizar.

Ao terminar o Ensino Médio, ingressou logo no ensino superior em 2007. E por gostar muito do exercício da leitura e escrita, optou pelo curso de Letras. Trabalhava para pagar o estudo. Somente a partir de 2012 começou a lecionar. E, por mais que desde 2007 estivesse envolvida com o meio educacional, descobriu sua verdadeira missão na interação estudante/educadora. Na mediação de conhecimento como professora/educadora em sala de aula ou fora dela. Sendo através dos livros ou na biblioteca ambulante dos mestres, as pessoas mais velhas, onde nesses momentos se torna também estudante ou através dos livros didáticos.

Nessa troca, com os pés firmes no chão, nesse território onde o aprendizado é verdadeiramente coletivo, uma vez que é vivenciado e repassado, mesmo que às vezes reformulado, a essência vai ficando. Para ela, os educandos precisam saber quem são, precisam saber contar sua própria história e acima de tudo entender que no quilombo a educação por si só não se sustenta. Os educandos quilombolas precisam compreender que a educação é um alicerce para a reconquista do território. O território onde se planta, se colhe. Onde se mora, se brinca, se tira o sustento e se sustenta a história, a ancestralidade. Onde se vive e se luta para que de fato se tenha a tão sonhada liberdade usurpada do povo, dos ancestrais.

Fabiana Ana da Silva Mendes ou simplesmente Fabiana Vencezlau. Sua história é de luta e a luta é sua história.

Venceslau era seu pai e quando perguntada o porquê desse segundo nome ela diz sorrindo que seu pai era um homem que respeitava as mulheres, não estava nem atrás e nem à frente, mas lado a lado. Tem 31 anos, é professora, formada em Letras pela FACHUSC, pós graduada em Educação Intercultural no Pensamento Decolonial pelo IF – Floresta e pós graduada em Língua Portuguesa pela UPE – Garanhuns. Está cursando Pedagogia pela FACHUSC e enquanto houver o que estudar, estará estudando. 

Em 2010 sofreu um acidente que lhe impede de jogar bola. Neste acidente ela quebrou o pescoço e por conta disso não pode mais jogar bola. Acredita que ficou viva por um milagre de Deus o que para ela só aumenta a responsabilidade de estar sempre levando esperança para outras pessoas.

 

Está sempre disponível para contribuir quando solicitada seja na luta pela educação, território, gênero ou onde a luta lhe chamar, pois ela nasceu para lutar. A luta lhe libertou e através de sua luta leva empoderamento para que outras mulheres possam também se libertar.